Há pouco mais de ano, eu e um colega aqui do núcleo planejávamos escrever um texto, a quatro mãos, para formalizar algumas idéias que tínhamos a respeito de como se consome música hoje, de como se produz música hoje e de como isso efetiva uma série de procedimentos filosóficos e teóricos de um modo bastante forte.
Talvez pelo caráter genérico da nossa proposta, outras coisas aconteceram: algumas edições da Teknopolis, uma parceria nos decks, outras festas, outros compromissos, mas o texto não.
Cheguei a considerar que boa parte dessas impressões podiam apenas ser fruto de uma certa má vontade nossa para com o que está aí, na ordem do dia, que circula facilmente nos meios de difusão musical e que afina, assim meio displicentemente, a maior parte dos ouvidos. Mas acho que não. Se fosse má vontade ou mau humor poderia já ter passado, mudado de aspecto, e parece que não mudou. Mas também pode ser má vontade e mau humor, vai saber.
Pra quem cresceu nos anos 80, e mesmo nos 90, ouvindo rádio a princípio, depois comprando os próprios LP’s, gravando as próprias fitas K7, de algum modo cresceu ouvindo o rock dos anos 70, dos 80, metal, quem sabe até passando pelo punk e hardcore (Exploited, Discharge, GBH, o que mais quiser), pelo rock nacional alternativo, ou por aquilo que de algum modo se chamava de avant-garde (alguém ouviu Cassiber?). Enfim, as combinações são infinitas, talvez até equivalentes. E é justo que em algum momento se tenha encontrado nessas referências algum apoio pra se contrapor ao gosto padrão e formar um arsenal próprio.
É notável, aliás, como o mercado de instrumentos musicais (guitarra, baixo, bateria) cresceu nesse período.
No começo de 2000 tudo muda. As conexões P2P nos libertam do mercado fonográfico local e nos mostram que, sim, é possível acessar os sons que se julgava impossível conseguir, e mais que isso, mostram que o cenário de produção musical é algo assustador. Pra dar um exemplo, bastava acessar o MP3.com, que hoje já é algo bem diferente e quase irrelevante. Ainda me surpreendem algumas descobertas desse período, tipo Mahogany (The Dream of a Modern Day), Isobella (Akasha), Crybaby, Sianspheric, Drone Theory, Lowsunday, Flux Capacitor etc. etc. etc.
Era uma situação delicada, porque se você almejava sair de casa pra encontrar na rua algo desse tipo, certamente não iria rolar. Era um momento em que se falava de pós-pop, e em que nada era mais aborrecedor do que riffs de guitarra. O ônus disso, claro, poderia ser aderir à turma do baixo-astral. Mas não vem ao caso.
Diante dos combates contra a pirataria, boa parte dos P2P se foi (Napster, Audiogalaxy, Kazaa, Blubster), mas o fato é: era pirataria? Ou a rede finalmente nos possibilitava acesso à informação? Se tinha alguém fazendo $ com isso era outra história, mas mesmo assim, e daí? Talvez o mainstream estivesse vendendo alguns milhares de cópias a menos, mas paralelamente a quantidade de shows aumentava consideravelmente. Todo mundo tem de trabalhar, não? E outra: qual era antes a possibilidade de uma banda sem publicidade (penso no Crybaby, de Atlanta, que já não existe mais e que é a que primeiro me vem à cabeça, mas poderia ser qualquer outra, de qualquer parte do globo), por exemplo, ser ouvida na América Latina em tempo real e gerar algum tipo de discussão? Alguém faz grana com o Soulseek?
Com a rede, tudo passa a se horizontalizar. Caiu a verticalização das multinacionais, dos grandes produtores, os quais nos permitiriam meses, anos depois, comprar um disco que talvez tivesse sido gravado já há muito e que por alguma falta de demanda tenha ficado cozinhando nas gravadoras. (Alguém lembra da crise do papel aqui no Brasil, no fim dos 80, quando as campanhas eleitorais tinham esgotado todos os estoques? Os discos não saíam, não havia como imprimir as capas!)
Depois da rede, o varejo da música assume (e digo assume porque já era algo latente) o estatuto de luxo, algo do tipo “ter os livros na estante”, ou como uma alternativa fácil para quem mantém uma relação de consumo musical de satisfação apenas imediata. Aliás, para a política que distribui fatias de cultura cujos impostos foram devidamente recolhidos, este é na verdade o dito bom cidadão, aquele que “consome como deve ser”, que escolhe a partir do que lhe é oferecido…
Mudando a posição, no entanto, este cidadão apenas integra a porção preguiçosa da rede. Porque o acesso às fatias de cultura através da rede não é tão simples quanto ter o bilhete de acesso ao bem (caso você tenha condição financeira para fazer isso): exige um alto grau de pesquisa, de domínio de procedimentos de busca e, principalmente, de criatividade para fazer a busca. (Desconhecer esses mecanismos hoje já constitui uma nova forma de analfabetismo.) Além disso, requer uma vontade bastante digna entre os usuários: compartilhar a informação sem mercenarismo. Porque numa rede de fato interessante, a palavra de ordem é “Share your files!”
Tem muita gente que diz não conseguir nos arquivos digitais o mesmo efeito de ter um objeto nas mãos, uma “imagem palpável”. Cheguei a pensar que este se trata de um mau momento para o colecionador, porque o objeto estaria se tornando algo em extinção. Mas talvez seja justamente o clímax do colecionador, porque o objeto está finalmente em extinção. E na esfera digital, seria um tanto bizarro ter uma relação do tipo “possuo o arquivo original”. Não dá. Pra quê?
Na horizontalização das coisas, a figura moderna do artista caiu por terra. Todos nos tornamos produtores e o sentido das relações de significado é cada vez menos legislável. Não se trata de um desdobramento novo, porque as linguagens sempre se movimentaram, expandiram-se ou se extinguiram assim.
Há um texto da década de 90 em que Pierre Lévy passa a considerar a música digital como “a figura singular do universal sem totalidade”. Ou seja, mais do que em qualquer outro momento, os objetos da música se relacionam tal como a linguagem, por contaminação, apropriação, recombinação, mixagem. Há uma disposição política mal intencionada que entende isso por roubo, parasitismo, e ao fazê-lo, atribui ao termo apropriação um valor negativo, tal como seria entender por “crítica” algo negativo. A apropriação é na verdade a possibilidade que “aquilo que já foi” tem de “estar novamente aí”, de uma forma inusitada e até então impensável ou simplesmente inédita. Trata-se, sim, de uma nova política de produção, compartilhamento e consumo de idéias.
Gilles Deleuze montou essa figura de um modo simples e paradoxal: tudo é máquina de máquina. As músicas não são mais só músicas, as imagens não são mais só imagens, os textos não são mais só textos. Tudo são peças de um quebra-cabeça cuja estampa não foi definida previamente. São peças com encaixes vários e ajustáveis, e que para o terror de quem antes gerenciava os bens da cultura, nos outorga a todos, agora, a condição de produtores.
Creio que este não é o texto que teríamos escrito um ano atrás. Porque talvez nosso conceito de texto fosse ainda bastante restrito. Hoje fica claro que aquele texto não era só aquele texto. É a Teknopolis acontecendo, e vamos em frente!
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